Num período onde o tema do crash financeiro surge diariamente em todos os órgãos de comunicação social, atribulando tudo e todos, outro fenómeno parece cada vez mais acentuar-se na nossa sociedade, aquilo a que decidi chamar de crash do tempo familiar, entendido como a perca de tempo que os pais dedicam aos filhos. O Instituto Nacional de Estatística (INE) revelou um estudo no qual 83,7% dos pais portugueses teriam declarado que, mesmo sem perda de regalias, não desejavam alterar a sua vida profissional para dedicar mais tempo aos filhos. Destes resultados podem ser ponderadas duas hipóteses: ou os pais portugueses entendem que dedicam o tempo suficiente aos filhos e que esse tempo contribui de forma decisiva para a sua formação global, não considerando ser necessário abdicar do tempo profissional em prol dos seus descendentes; ou a vida profissional dos pais portugueses assume uma importância tal que é colocada no cume das suas preferências. Parece ser mais a segunda. Devemos então estar inquietos perante a evidência dos resultados deste estudo? Sim. As prioridades parecem estar invertidas, pois aqueles que têm a sorte de poderem ser progenitores, não parecem estar a colocar no topo das suas prioridades a formação integral dos seus descendentes, pois não lhes dedicam mais do seu tempo. Não me refiro àqueles pais que se sentem escravos dos seus filhos, esses também deviam repensar as suas prioridades de vida, mas aqueles que colocam a sua vida profissional sempre à frente da sua vida pessoal e de todo o tempo que deviam dedicar aos filhos para cimentar a sua formação, dando-lhes confiança e ajudá-los a crescer. É verdade que no nosso país, o conceito de trabalho em part-time ou de trabalho feito a partir de casa não é entendido da mesma forma que em outros países mais desenvolvidos, onde já se compreendeu que o tempo consumido em deslocações casa-trabalho-casa em nada ajuda na produtividade e no bem-estar do trabalhador, que se vê muitas vezes privado desse tempo, que poderia usar em situações mais proveitosas para si e para a sua família. Numa outra pesquisa, realizada em nove países europeus, entre os quais Portugal, revelou que o tempo que os pais portugueses dedicam em exclusividade aos seus filhos, não ultrapassa em média 30 minutos por dia. O que pensar deste resultado? De que modo é possível sentir que se está a colaborar para a educação dos filhos se apenas lhes dedicamos três dezenas de minutos por dia? Os estudos têm o valor que se lhes atribui, no entanto, servem de indicador para estarmos atentos e reflectirmos sobre eles. A prática de actividade física é um excelente contributo para a formação integral dos nossos jovens e talvez fosse importante que os pais portugueses procurassem momentos e locais de prática simultânea como os filhos, estimulando desse modo a relação entre eles e contribuindo igualmente para o seu desenvolvimento. A população brigantina tem essa oportunidade, pois a cidade de Bragança é hoje uma cidade diferente, com ofertas e procuras distintas, conservando, no seu tamanho de cidade do interior, uma capacidade inegável de permitir que o crash do tempo familiar não se acentue como o verificado em outras cidades do nosso país. É necessário dar valor a novos conceitos e espaços que estão a surgir nesta cidade que pretendem contribuir para uma sociedade mais equilibrada, mais saudável e dedicada à educação dos filhos.
Artigo publicado no semanário A Voz do Nordeste a 16 de Outubro de 2008