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Crash do tempo familiar

Num período onde o tema do crash financeiro surge diariamente em todos os órgãos de comunicação social, atribulando tudo e todos, outro fenómeno parece cada vez mais acentuar-se na nossa sociedade, aquilo a que decidi chamar de crash do tempo familiar, entendido como a perca de tempo que os pais dedicam aos filhos. O Instituto Nacional de Estatística (INE) revelou um estudo no qual 83,7% dos pais portugueses teriam declarado que, mesmo sem perda de regalias, não desejavam alterar a sua vida profissional para dedicar mais tempo aos filhos. Destes resultados podem ser ponderadas duas hipóteses: ou os pais portugueses entendem que dedicam o tempo suficiente aos filhos e que esse tempo contribui de forma decisiva para a sua formação global, não considerando ser necessário abdicar do tempo profissional em prol dos seus descendentes; ou a vida profissional dos pais portugueses assume uma importância tal que é colocada no cume das suas preferências. Parece ser mais a segunda. Devemos então estar inquietos perante a evidência dos resultados deste estudo? Sim. As prioridades parecem estar invertidas, pois aqueles que têm a sorte de poderem ser progenitores, não parecem estar a colocar no topo das suas prioridades a formação integral dos seus descendentes, pois não lhes dedicam mais do seu tempo. Não me refiro àqueles pais que se sentem escravos dos seus filhos, esses também deviam repensar as suas prioridades de vida, mas aqueles que colocam a sua vida profissional sempre à frente da sua vida pessoal e de todo o tempo que deviam dedicar aos filhos para cimentar a sua formação, dando-lhes confiança e ajudá-los a crescer. É verdade que no nosso país, o conceito de trabalho em part-time ou de trabalho feito a partir de casa não é entendido da mesma forma que em outros países mais desenvolvidos, onde já se compreendeu que o tempo consumido em deslocações casa-trabalho-casa em nada ajuda na produtividade e no bem-estar do trabalhador, que se vê muitas vezes privado desse tempo, que poderia usar em situações mais proveitosas para si e para a sua família. Numa outra pesquisa, realizada em nove países europeus, entre os quais Portugal, revelou que o tempo que os pais portugueses dedicam em exclusividade aos seus filhos, não ultrapassa em média 30 minutos por dia. O que pensar deste resultado? De que modo é possível sentir que se está a colaborar para a educação dos filhos se apenas lhes dedicamos três dezenas de minutos por dia? Os estudos têm o valor que se lhes atribui, no entanto, servem de indicador para estarmos atentos e reflectirmos sobre eles. A prática de actividade física é um excelente contributo para a formação integral dos nossos jovens e talvez fosse importante que os pais portugueses procurassem momentos e locais de prática simultânea como os filhos, estimulando desse modo a relação entre eles e contribuindo igualmente para o seu desenvolvimento. A população brigantina tem essa oportunidade, pois a cidade de Bragança é hoje uma cidade diferente, com ofertas e procuras distintas, conservando, no seu tamanho de cidade do interior, uma capacidade inegável de permitir que o crash do tempo familiar não se acentue como o verificado em outras cidades do nosso país. É necessário dar valor a novos conceitos e espaços que estão a surgir nesta cidade que pretendem contribuir para uma sociedade mais equilibrada, mais saudável e dedicada à educação dos filhos.   

Artigo publicado no semanário A Voz do Nordeste a 16 de Outubro de 2008 

A mudança é um simples termo que caracteriza a sociedade contemporânea à qual se associaram novos hábitos e estilos de vida resultantes das alterações significativas das condições de vida das populações e do ritmo alucinante no qual o ser humano se vê, constantemente, envolvido. Esta alteração de comportamentos nem sempre ocorre na direcção do fomento e implementação da promoção da saúde. Os problemas relacionados com os estilos de vida resultaram das alterações protagonizadas pelas sociedades contemporâneas, transformando-se em preocupações de saúde pública não só nos adultos, mas sobretudo nos jovens. A concepção de que os adolescentes são o grupo mais saudável da população global parece ter-se alterado. A adolescência é um período fulcral no qual se apreendem comportamentos com grandes repercussões para a saúde, tanto a curto como a longo prazo e que muitas vezes são difíceis de modificar durante a vida adulta. Durante esta fase, na qual o adolescente vivencia um rol de experiências, as suas opções de vida balançam entre comportamentos saudáveis e comportamentos de risco. Daí que os hábitos e estilos de vida que, por vezes, escolhem, não são o resultado de opções inteiramente isentas, conscientes e autónomas. O adolescente é influenciado pelas pressões e constrangimentos exteriores de natureza ambiental, social, cultural e económica. É cada vez mais importante promover um estilo de vida saudável antes e durante o período da adolescência, pois assiste-se hoje a uma confluência de circunstâncias, nem sempre protectoras da saúde, que determinam o estilo de vida dos jovens, integrados nos sistemas educativos. Perante o interesse social que esta temática tem despertado, elaborei um projecto de investigação, de cariz académico, no qual foram auscultados 825 alunos dos 14 aos 18 anos, das duas escolas EBI e das três escolas ES/3 da cidade de Bragança, a fim de identificar, descrever e acompanhar, ao longo de um ano lectivo, alguns dos perfis que influenciam os comportamentos dos adolescentes brigantinos, nomeadamente na actividade física, no consumo do tabaco, no consumo do álcool, bem como na procura de entender o modo como os jovens se auto-percepcionam. Concentrámos a nossa atenção no meio escolar, pois a escola é hoje um importante espaço de experimentações e vivências desses mesmos comportamentos. O ambiente escolar exerce, devido ao tempo que actualmente os jovens passam nele, uma influência marcante nos seus valores, no seu comportamento, nos seus hábitos e na forma como vão construindo a sua auto-percepção nos mais variados domínios. Das muitas conclusões que foram possíveis retirar saliento as seguintes: (i) independentemente do género e idade os alunos apresentaram baixos índices de actividade física, sendo também preocupante a tendência para diminuir com a idade; (ii) os consumos de tabaco e álcool aumentam progressivamente em função da idade, predominantemente no género masculino (iii) após um ano, os jovens inquiridos revelaram que a forma como se auto-percepcionam depende da aceitação social, da sua própria aparência física, do seu comportamento e a importância que dão ao amigo íntimo, curiosamente, ou não, a competência desportiva foi o indicador que apresentou maior instabilidade, em sentido negativo, isto é, os jovens auto-percepcionam-se negativamente face às suas próprias competências para a prática desportiva, o que é um indicador muto importante para entender a falta de interesse pela prática desportiva. A disciplina de Educação Física deve procurar entender estas razões e modificar as suas metodologias na procura de motivar e atrair os jovens para a prática desportiva, essa motivação deve ser cada vez mais de carácter intrínseco.

Artigo publicado no semanário A Voz do Nordeste a 1 de Outubro de 2008

 

Deu inicio mais um ano lectivo e, tal como outros, o corrupio apodera-se das famílias para retomar os ritmos impostos pelas obrigações laborais e escolares. Os novos horários e os novos ritmos impõem a pais e filhos a necessidade, cada vez maior, de se organizarem em prol do seu bem-estar físico e psíquico. Conjuntamente com as obrigações escolares, são cada vez mais os pais que procuram uma prática desportiva regular para os filhos, independentemente dos seus gostos e convicções. Em Bragança, tal como em outras cidades do país, existem vários clubes, academias e escolas de desporto que promovem a prática de actividade física regular, contudo a escassez de diversidade coloca ainda alguns entraves na hora de escolher a actividade preferencial. Porém o panorama está a mudar e as apostas na qualidade dos formadores e dos espaços de prática desportiva são cada vez mais e de melhor qualidade, existindo mais dirigentes com formação superior na área de Educação Física e Desporto, o que por si só é um indicador de boa mudança. Não que eu considere razão única para o sucesso, mas é um bom indicador, pois da mesma forma que não podemos conceber a construção de uma casa sem o projecto de um arquitecto ou engenheiro civil, não podemos cogitar a formação dos nossos jovens desportistas sem alguém responsável por delinear a filosofia de formação assente em princípios pedagógicos e orientadores para uma correcta formação humana. Mas será que na hora de escolher o clube ou academia, os pais se questionam sobre a formação e a filosofia de ensino desses espaços? Que objectivos são perseguidos no momento de escolher uma prática regular de actividade física para os filhos? Que reflexão farão os pais na escolha da actividade física mais apropriada para os filhos? O que difere na hora de optar por uma academia/clube em detrimento de outra? Ou entre uma modalidade e outra? Os gostos e vontades dos filhos prevalecem no momento de iniciar e permanecer na prática desportiva escolhida? Porque também é necessário que os pais eduquem os filhos a serem resistentes ao abandono, pois o abandono da prática desportiva juvenil é muitas vezes um indicador de capricho dos filhos por não conseguirem lidar com o esforço e as dificuldades inerentes a esta prática. Não pode ser esquecido que os valores instituídos no desporto estão inerentes aos valores que se recomendam na sociedade. Perante isto, como preconizarão, os pais brigantinos, a prática de actividade física dos seus filhos? Será através do preço que pagam? Serão as condições para a prática existentes nas instituições? A certificação e formação dos instrutores/professores/treinadores serão também factores de selecção? Se não o são, deviam, pois são essas pessoas que terão a responsabilidade principal pela boa prática de actividade física dos filhos. Ou ainda estaremos enraizados ao passado? Onde a formação dos treinadores era utopia, bastando apenas ter sido praticante das modalidades para ocupar um cargo de imensa responsabilidade como é o de treinador de crianças e jovens. Ou nunca nos questionamos sobre a importância do papel desses formadores? Os pais brigantinos estão cada vez mais informados e sensibilizados para estas e outras questões, todavia considero que é necessário melhorar o know-how de toda uma educação desportiva que se inicia com os hábitos dos progenitores em casa e continua com as intervenções no seio escolar. Às academias e clubes compete a cimentação dos hábitos desportivos, sempre que o façam segundo uma filosofia de ensino bem estruturada e definida, assente em princípios pedagógicos, e com profissionais certificados.

Artigo publicado no semanário A Voz do Nordeste a 18 de Setembro de 2008 

 

O Século XX consagrou a prática desportiva e impulsionou a sua massificação e integração social. Na actualidade, o modo como as sociedades promovem e desenvolvem a prática desportiva em todos os estratos, sociais, etários e profissionais é hoje apreciado como um barómetro do seu desenvolvimento socioeconómico e cultural. Que lugar ocupa e como observamos o desporto na nossa sociedade? Faremos algum tipo de distinção entre o desporto que é praticado por meninos e o que é praticado por meninas? Será o futebol um desporto evitado pelas mães de belas meninas e a dança um prenúncio de perca da masculinidade dos nossos meninos? Estaremos ainda num período refractário face à prática desportiva feminina? Durante a Idade Média, a mulher participava dos mesmos afazeres que os homens e chegava, inclusivamente, a tomar parte em actividades cinegéticas e em jogos desportivos populares. Porém, o ideal do amor cavalheiresco e da mulher delicada impôs-se nos finais daquela época e, com ele, também ressurgiu um conceito de mulher incompatível com as actividades físicas e desportivas. Incompreensivelmente é ainda retida a imagem da mulher assente numa fraqueza, utópica no meu entender, e de total dependência do homem no seio da sociedade, considerando-se imoral, toda a participação em práticas desportivas que não enalteçam a sua condição delicada de mulher. Desculpem-me a franqueza mas muitos desses preconceitos são provocados pelas próprias progenitoras, incapazes de se libertarem de um ideal retrógrado e bravio de educação desportiva, o mesmo acontece face aos meninos que procuram evoluir culturalmente em práticas desportivas “apelidadas de meninas”. É necessário perceber-se o lugar e a importância do desporto na formação da pessoa, na promoção da sua identidade e do seu desenvolvimento pessoal, na melhoria da sua saúde mental e física, mas também no contributo positivo para o processo de aprendizagem, entenda-se todo e qualquer desporto, sem procurar diferenciá-lo por género. Num estado de direito deve-se permitir e criar condições de igual oportunidade de prática desportiva a meninos e meninas, evitando a descriminação e separação de práticas. O modo como rapazes e raparigas sentem e vivenciam e o significado que dão às actividades desportivas é distinto, desse modo, eles próprios escolherão os seus caminhos, cabendo aos adultos orientarem a construção da sua personalidade, nunca condicionando as suas preferências. Mesmo a própria escola, na disciplina de Educação Física, terá de deixar o modelo tecnicista, tão adequado aos interesses e gostos dos rapazes, procurando uma aprendizagem global e voltada para a criação do prazer pela prática desportiva. Terá que ir ao encontro dos interesses de todos os alunos, dos seus gostos e necessidades e só assim possibilitará o prazer pela prática desportiva e poderá contribuir para a criação de hábitos de vida mais saudáveis. Se o desenvolvimento desportivo é o reflexo do estado socioeconómico e cultural dos diversos países, é natural que o desporto em Portugal se encontre numa fase de evolução mais atrasada que nos restantes países mais industrializados e economicamente mais poderosos. Desse modo, é importante realizar um trabalho de fundo, de cariz educacional sobre o modo como se entende a prática desportiva e o lugar que esta deve ocupar na formação dos nossos jovens, independentemente do seu género.

Artigo publicado no semanário a Voz do Nordeste a 17 de Julho de 2008

 

Ao folhear uma das muitas edições, de uma das mais reconhecidas revistas de tiragem nacional, deparei com um comentário que apenas se intitulava Educação Física. Como profissional da área não perdi tempo e orientei toda a minha atenção sobre o dito artigo. Tratava-se de um escrito de opinião onde eram realçados, com veemência, os “males” da educação em Portugal. A princípio não compreendi a relação entre o título e o corpo do texto. Será que a autora, professora de profissão, tencionava afirmar que o mal da educação em Portugal estaria na disciplina de Educação Física? De facto sim, era mesmo isso que se tratava. A autora dos parágrafos parecia aguardar que alguém, não personificado, se dignasse a reflectir sobre o tema da Educação Física, considerando que o programa era pautado por deficiências e que era incompreensível que uma disciplina “de avaliação dúbia”, passo a citar, estivesse equiparada às disciplinas de cariz académico, ou ainda pior, como poderia essa disciplina ser determinante para a média de entrada no Ensino Superior? Atónito com o que acabara de ler decidi reflectir um pouco sobre a identidade da Educação Física enquanto disciplina curricular. É verdade que em muitos países da Europa Ocidental, a posição da Educação Física como disciplina obrigatória do tronco comum das escolas públicas é ainda colocada em causa, enfrentando constantemente o cepticismo quanto à sua relevância social. Muitos são ainda aqueles que consideram o ensino da Educação Física despojado de qualquer intenção de produzir aprendizagem, considerando-a meramente como um “treino do físico”. Mas será apenas isso? Será que a Educação Física é verdadeiramente um dos “males” da Educação em Portugal? Estarão desacertados todos aqueles países que consideram premente aumentar a carga lectiva da referida disciplina, contribuindo assim para a constituição de uma sociedade mais saudável e fisicamente mais activa? A Educação Física não terá mesmo valor social nem contribuirá para melhorar o rendimento escolar dos alunos? A existência de uma disciplina como a Educação Física não ajudará a criar e moldar hábitos de vida mais saudável? Reflectindo sobre o assunto, considero que talvez o mal resida na terminologia, pois o termo Educação Física não transporta todos os desígnios que esta disciplina abrange, nem permite entender, mesmo à classe docente em geral, que a sua avaliação é objectiva e sustentada em domínios de aprendizagem (cognitivo, sócio-afectivo e psicomotor). No meu entender a disciplina não deve ocupar um lugar de destaque, mas deve destacar-se pela sua importância e diferença no currículo, assumindo outra nomenclatura mais científica e sustentada, como a Educação Desportiva.

Artigo publicado no semário A Voz do Nordeste a 3 de Julho de 2008 

 

Desde os primórdios que o homem aproveita o desporto para conseguir diferentes propósitos, uma boa condição física, benefícios para a sua saúde, formação pessoal, disciplina, auto-superação, razões economicistas, razões morais e politicas, entre outros. O desporto é assim um promotor do desenvolvimento da personalidade do indivíduo, permite a oportunidade de aprendizagem e a melhoria de várias técnicas, sejam elas cognitivas, sociais ou motoras. Quando bem estruturado e organizado, o desporto contribui para o aumento da auto-estima das pessoas, mantém e promove a sua saúde, colaborando igualmente na melhor organização e gestão do tempo diário, tão necessário nos tempos que correm, sobretudo durante a formação educacional das nossas crianças e jovens. Desta forma o desporto constitui uma prática social, de elevado significado cultural, na qual todas as pessoas envolvidas querem realizar ou ver realizados distintos valores. Mas será que o desporto é cultura? Que relação existirá entre o desporto e a cultura? Por que será que muitos milhões de pessoas em todo o mundo procuram cada vez mais locais formais e informais de prática desportiva e outros tantos milhões não o façam? Porque existem países, nomeadamente os escandinavos, com taxas de participação em programas regulares de actividade física e desportiva, em todos os escalões etários, na ordem dos 90%? Será por razões culturais e organizacionais das próprias sociedades? Talvez a prática desportiva seja entendida de forma diferente em todo o mundo, todavia, parece ser aceitável que o desporto constitui, em si mesmo, uma actividade com distinto valor social e cultural, embora seja inevitável a sua ligação a todos os valores e objectivos desportivos que o acompanham. O desporto é de facto multicultural, veja-se o exemplo da dança, uma actividade que pelo seu forte valor cultural é transmissora de hábitos e costumes dos povos. Poucas são as actividades culturais que transmitem tantos valores e permitem a possibilidade de vivenciar esses mesmos valores através do movimento que despertam.  Seja como participante, espectador, treinador ou pai, a educação através do desporto, mais do que uma simples transferência de habilidades ou conhecimentos, envolve também a estimulação de uma atitude reflexiva sobre aquilo que se aprende. Se cultura é definida pela Academia das Ciências de Lisboa como o “desenvolvimento ou incremento de uma ou mais faculdades intelectuais, do físico; conjunto de conhecimentos relativos a um ou mais áreas do saber; conjunto de conhecimentos adquiridos por alguém, de experiências que permitem o enriquecimento do espírito, o desenvolvimento de capacidades intelectuais”; estou certo que o desporto é deveras um meio de aquisição de cultura para quem nele verdadeiramente participa, independentemente da forma de participação. Associado às questões culturais, no modo como as sociedades observam a participação desportiva e entendem o real valor do desporto e da cultura nas suas próprias vidas, está aquilo, que a supracitada Academia define como o “modo de ser ou atitude de quem atende acima de tudo, ao seu conforto e bem-estar, de quem evita o esforço, as dificuldades, as complicações”, o comodismo. Fundamentado por inúmeros motivos, o comodismo vai ocupando um lugar cada vez maior, tornando-se num adversário poderoso para a desprovida cultura existente na sociedade. Numa época de sustentadas mudanças, devido a uma alegada crise que todos sentimos, talvez seja a altura certa para mudar o pensamento comodista e compreender realmente a importância que a cultura e o desporto têm na vida de uma sociedade, ou se quisermos ter um pensamento egoísta, a utilidade que o desporto e a cultura têm na nossa própria vida enquanto cidadãos. 

Artigo publicado no semário A Voz do Nordeste a 19 de Junho 2008 

 

A globalização é hoje matéria de debate e de reflexão a nível mundial, devido à forte influência que exerce no comportamento do planeta. Se o lado mais visível da globalização gira em torno dos planos económico e político-ideológico, o desporto moderno afirma-se como uma linguagem universal e um modelo de cultura reconhecido em todo o mundo. Como poucas actividades, o desporto vai derrubando, ao longo do tempo, barreiras culturais, religiosas e políticas, e instala-se por todo o lado como um processo unificador de sociedades contribuindo, em grande medida, para o (r)estabelecimento dos contactos diplomáticos entre o Oriente e o Ocidente, assim como entre os mais diversos sistemas políticos e credos religiosos. É verdade, que desde tempos imemoriais, o desporto assume-se como um vector de conexões entre as sociedades humanas, sendo hoje entendido como um benefício civilizacional e educacional. As constantes permutas de atletas, treinadores e dirigentes desportivos pelo mundo fora, vão aculturando clubes, sociedades e nações, com tudo o que isto pode trazer de bom ou de mal para a própria identidade nacional. Mas o que será verdadeiramente a identidade nacional no mundo global em que vivemos? Que entendimento fazemos da idealização da nação? O que nos faz semelhantes e ao mesmo tempo nos distingue dos outros? Qual ou quais são hoje considerados os nossos heróis? Em tempos os heróis nacionais eram aqueles que, durante o século XVI, desbravavam os mares e territórios desconhecidos, tornando Portugal na primeira potência a criar um poder global no sistema político mundial. Presentemente são os bravos homens que envergam a camisola nacional, nos mais diversos eventos desportivos, que ostentam esse estatuto e são eles que conseguem mobilizar uma nação em redor do mesmo interesse. Não é que os portugueses não tenham objectivos, ou desconheçam o significado da identidade nacional e o valor de pertencer a uma nação, porém só o conseguem manifestar em redor do desporto. De facto a hegemonia do desporto traduz-se também pela forma como acultura a própria humanidade. Actualmente a identidade nacional revê-se nos feitos desportivos dos seus atletas, mediatizados e idolatrados como heróis de um povo que procura, em cada evento desportivo, enaltecer os seus símbolos, incluído a bandeira e o hino. Durante esse período de latência são esquecidas as desigualdades sociais, os conflitos institucionais e todas as dificuldades inerentes a um país cada vez mais aculturado. Mas curiosamente foi essa aculturação, permitida pela globalização, que possibilitou que o actual seleccionador nacional de futebol, de origem brasileira, reacendesse a chama da unidade nacional. A mesma chama que ainda perdura em torno da selecção de todos nós e que, mesmo além portas, acompanha e alumia os novos heróis nacionais (veja-se a forma apoteótica como os emigrantes receberam a selecção de Futebol na Suíça)Que essa chama perdure e ilumine também outros campos da nossa sociedade, mas que principalmente realce a própria cultura de se ser português. 

Artigo publicado no semanário A Voz do Nordeste a 5 de Junho 2008    

 

 

No passado dia dezasseis, numa das muitas páginas que compõem um conhecido jornal de tiragem nacional, podia ser lido o seguinte titulo: Os tempos livres dos portugueses são “sedentários”, mas os hábitos estão a convergir com a Europa. Interrogado por este título, debrucei toda a minha atenção sobre o conteúdo da notícia. Tratava-se da divulgação de um estudo, realizado por uma empresa multinacional, sobre o modo como a população portuguesa, com mais de 15 anos, ocupava os seus tempos livres, enumerando as “actividades de entretenimento” que teriam realizado nos últimos 12 meses. Embora a amostra contasse apenas com 1036 indivíduos, este curioso estudo, também mediatizado pela radiofonia nacional, despertou em mim a seguinte questão: Se em Portugal os tempos livres são “sedentários” e temos os índices de actividade física e desportiva mais baixos da Europa em que medida se pode afirmar que os portugueses estão a convergir com os europeus? Calcorreando pelo corpo da notícia, pude aclarar que a maior preocupação do dito estudo, não era o sedentarismo nacional, mas antes a multiplicidade de opções que os portugueses têm para ocupar o seu tempo livre (ver Televisão, navegar na Internet, ouvir Mp3, consolas de jogos, …). Mas que terão estas conclusões de extraordinário? Não é suposto vivermos num mundo global? Num mundo de pluralidade? Onde as sociedades se aglomeram cada vez mais em redor da tecnologia? Talvez por defeito de profissão considere que o importante não seria que estes hábitos estivessem a convergir com os europeus, pois isso é uma consequência da “globalização tecnológica”, mas antes que a prática de actividade física fosse enumerada nas preferências dos tempos livres dos portugueses. Não deixou também de ser curioso, no decurso da notícia, que uma das autoras do estudo relaciona-se a valorização da casa e da família como explicação para o sedentarismo português, isto é, os portugueses preferem adoptar hábitos “caseiros” como forma de desenvolvimento pessoal e familiar, talvez se trate de uma questão cultural. Concordo com este ponto, de facto é no seio familiar que tudo se inicia e deve ser através deste importante “agente de sociabilização” que os portugueses deverão alterar os seus hábitos de vida, porque não procurar a prática de actividade física familiar? Porque não aumentar a relação familiar durante a prática de exercício físico ao invés de ficar sentados e consumir o que se quer e não se quer na “caixinha mágica”? Talvez fosse necessário, para todos os portugueses em geral e para a grande maioria das famílias em particular, reordenar as prioridades de lazer, privilegiando à prática física e desportiva em detrimento de hábitos passivos. De referir que no supracitado estudo a opção de “ver Tv” era referida por 96% dos inquiridos.

Artigo publicado no semanário A Voz do Nordeste a 20 de Maio de 2008 

Parecem ser incontestáveis os benefícios da actividade física regular na saúde física e mental das crianças e jovens. O poder participar em jogos, actividades desportivas, dança e outras actividades físicas oferece-lhes a possibilidade de se expressarem, de adquirir auto-confiança e capacidade de desenvolverem sentimentos de sucesso, favorecendo igualmente as relações com os seus pares, bem como uma melhor integração social. A realidade do nosso país é bastante preocupante, tal como em outras matérias, também nesta, os nossos futuros timoneiros ocupam o último lugar no ranking europeu de prática de actividade física e desportiva. Perante este cenário, no qual assumimos o lugar de espectadores atentos, algumas questões são levantadas: Estaremos todos a contribuir para a concepção de uma geração de inactivos? Com pouca capacidade de pensar e menor ainda de agir? Quem terá então a culpa de toda esta situação? Que papel têm e como encaram os pais a actividade física dos filhos? Pois, as atitudes, as expectativas e os juízos dos pais face à actividade física dos filhos desencadeiam a criação de hábitos regulares, num sentido ou noutro. Mas será que os pais se preocupam verdadeiramente com este tema? Considerarão importante, todos os benefícios da actividade física na formação dos filhos? Farão mesmo tudo para proporcionar e ajudar os filhos neste repto? Ou deixarão entregue esta responsabilidade nas mãos de outros? Será a falta de tempo uma das causas que os impedem de realizarem e proporcionarem momentos prazenteiros de actividade física com os seus filhos? Ou quiçá a falta de gestão desse mesmo tempo aliada ao desconhecimento das ofertas de prática simultânea para pais e filhos sejam, numa cidade como a nossa, as causas principais para esse descuido com a actividade física?   É sabido, a forte influência parental sobre os filhos, e tanto maior quanto mais baixa for a idade; pois também é maior a relação de dependência que se estabelece entre filhos e pais. Sabendo que existe maior probabilidade que os hábitos de actividade física, adquiridos desde cedo, se mantenham ao longo da vida, proporcionando deste modo a construção de uma base mais sólida e eficaz relativamente aos estilos de vida saudáveis, os pais têm responsabilidades acrescidas também neste plano de educação dos filhos.Não pretendendo apreciar comportamentos, diria apenas, como repto final deste artigo, que é importantíssimo, também no desenvolvimento da nossa sociedade, que os “pais brigantinos” contemplem e sejam activos perante a actividade física dos filhos e que a entendam como veículo do desenvolvimento humano integral e harmonioso. 

Artigo Publicado no Jornal Semanário A Voz do Nordeste a 8 de Maio de 2008     

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